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Centro Espírita Beneficente União do Vegetal

Conselheira Francisca, a primeira professora da UDV

Blog · · Rodrigo Bomfim Pacheco

Conselheira Francisca, a primeira professora da UDV
Conselheira Francisca, a primeira professora da UDV | Foto: Isac Pinheiro.

Francisca dos Santos Macedo, a Conselheira Francisca, associada no Núcleo Mestre Gabriel (Porto Velho-RO), nasceu no dia 17 de abril de 1934, em Afonso Pena, hoje Acopiara, no Estado do Ceará. Veio para a Amazônia, acompanhando a família, aos oito anos de idade. A viagem foi a bordo do navio Pará, do Lloyd Brasileiro, a mesma embarcação que trouxe Mestre Gabriel, a quem só conheceu em 7 de maio de 1967, quando bebeu o Vegetal pela primeira vez.

A viagem foi uma aventura, em plena Segunda Guerra Mundial, com perseguição de submarino alemão, a vigilância de aviões aliados e uma epidemia de sarampo a bordo que causou a morte de muitas crianças. Em Belém (PA), passaram para o navio Siqueira Campos e daí até Rondônia, então denominado Território Federal do Guaporé.

Com esforço e muita luta, ela ingressou no Magistério. Quando o Mestre Gabriel veio em definitivo dos seringais estabelecendo-se com a família em Porto Velho, foi convidada por ele para dar aulas de reforço para os filhos, mas a ideia alcançou a vizinhança e 15 crianças passaram a frequentar a Escola 22 de Julho, que funcionava na Sede da União do Vegetal.

Anotações

Em diversos cadernos, com uma letra esmerada, a Conselheira Francisca registrou esta e outras histórias. A seguir, a transcrição das anotações relativas à Escola 22 de Julho. Este ano, Conselheira Francisca comemora 53 anos de União do Vegetal:

Na imagem, algumas das crianças e professoras da Escolinha 22 de Julho | Arquivo: DMC/Sede Geral.
Na imagem, algumas das crianças e professoras da Escolinha 22 de Julho | Arquivo: DMC/Sede Geral.

“No ano de 1968 funcionou uma escola na casa de Mestre Gabriel, antiga Sede Geral da União do Vegetal, situada à rua Abunã, nº 1419, bairro Olaria, antigo Território do Guaporé.

Quando cheguei à União do Vegetal, em 07 de maio de 1967, o Mestre Gabriel já sabia que eu e minha irmã Josefa éramos professoras e lecionávamos na Escola Samaritana, do bairro Olaria, na rua Benjamin Constant, onde residíamos. Um dos filhos dele, o Jair, ainda adolescente (tinha entre 14 e 15 anos), era meu aluno no 2º ano primário. A família dele havia chegado do Abunã, rio Mamo, com os filhos menores, que estavam precisando estudar, pois estavam um tanto atrasados nos estudos. Jair auxiliava o pai nos trabalhos da Olaria, fazendo tijolos, e não tinha quase tempo para estudar. As outras crianças eram Jandira, com 11 anos, Carmiro, com 9 anos e Salomão, com 5 anos de idade. O Mestre Gabriel convidou-me a dar aulas de reforço na casa dele, na salinha onde eram realizados os trabalhos, sessões e reuniões.

Foram matriculadas diversas crianças que moravam ali perto, entre elas os meus três filhos, os três da minha irmã, dois da irmã Eulália, Jandira, Carmiro e Salomão. A folha de matrícula constava de mais de 15 crianças. O Mestre mandou colocar uma placa na frente da casa onde dizia ‘Escola Particular’.

Organizamos uma festinha no Dia das Crianças com um concurso que elegeria a rainha da escola. Pedimos autorização ao Mestre, que nos disse o seguinte: ‘Se houver concurso na escola vou comprar os votos para minha filha Jandira, ela vai ganhar’. Organizamos a festa na frente da casa, onde fizemos um palanque para a coroação das meninas Jandira, Érica Mendes e Ana Maria, respectivamente rainha, 1ª princesa e 2ª princesa, coroadas com coroas, faixa branca, rosa e azul e vestidos na cor da faixa. Estavam lindas, tiraram fotografias. Mestre Gabriel tirou fotografia com sua filha, muito feliz.

Neste mesmo ano a diretora de Educação e Cultura do Território do Guaporé, Marise Castiel, soube que eu estava lecionando no “mariri”, como chamavam a seita naquela época, pois não conheciam a União do Vegetal em Porto Velho, então mandou uma comissão de técnicos em educação visitarem a Escola Particular para verificar as condições, com a finalidade de incluí-la na rede escolar de ensino, pois havia grande necessidade de escolas. Eles não acharam boas as condições da escola, devido ao pouco espaço para o recreio, educação física, etc. As crianças ficavam apertadas na sala e no pátio, pois a casa era muito pequena, só havia uma mesa comprida e os bancos ao lado.

As crianças faziam barulho, correndo dentro de casa, batiam nas paredes, subiam nos feixes de mariri, fazendo grande algazarra e perturbando os Mestres, que naquela época estavam escrevendo a Convicção do Mestre. A escolinha da União, como era chamada, não teve condições de permanecer e foi preciso desativá-la. Funcionou até dezembro de 1968”.

Conselheira Francisca dos Santos Macedo

Porto Velho, 18 de fevereiro de 1997.

Alunos da Escola 22 de Julho:

Filhos do Mestre Gabriel e Mestre Pequenina: Jandira Gabriel, Carmiro Gabriel e Salomão Gabriel;
Filhos da Conselheira Eulália Castelo: Wilson Vieira da Silva e Suely Maia de Oliveira;
Filhos da Conselheira Francisca: Francisco de Assis Macedo, José Raimundo Macedo e João Bosco Macedo;
Filhos da Josefa (irmã da C. Francisca): Nazaré Miguel de Lima e Joaquim Miguel de Lima;
E mais: Alba Rita Luz, Ademir Luz, Ana Maria Luz, Jarina e Érica Mendes.

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*Rodrigo Bomfim Pacheco é integrante do Quadro de Mestres do Núcleo Príncipe Ancarilho (Guarapari-ES, 5ª Região) .

Texto publicado anteriormente no dia 16 de agosto de 2017.

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