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Centro Espírita Beneficente União do Vegetal

Mestre Rubens, “doutor mateiro”

Blog · · Edison Saraiva Neves

Mestre Rubens, “doutor mateiro”
Da E/D, os Mestres: Rubens Rodrigues, Edison Saraiva e Janico, Brasília-DF | Foto: DMC/Sede Geral.

Neste dia 22 de outubro de 2020, um mano meu faria 82 anos, Rubens Rodrigues, meu querido amigo Mestre Rubens. Nascido em 1938 no Seringal Bom Futuro, tive a satisfação de sobrevoar com ele num teco-teco de “espuma” (pilotado pelo nosso mano Ivo, aqui e ali também citado no panteão das nossas histórias) aquela grande área de floresta virgem. Lá o “caboclo sonhador” queria construir uma cidade para a irmandade. Algo que espelhasse a Cidade de Deus de Santo Agostinho. Lugar do Belo, Bom e Verdadeiro.

Homem de fala mansa, educado, polido nos modos, mateiro e “doutor”, Rubens tinha um linguajar refinado, idealista irremediável, compunha seus pensamentos com citações de filósofos ilustres, que lhe eram de grande valia para ilustrar as inúmeras ideias que jorravam do seu intelecto brilhante. Aqui e ali um Platão e um Aristóteles (Porto Velho realmente sempre foi muito surpreendente) lhe faziam companhia. Indagador nato, sofria doridamente com as injustiças deste mundo.

Foi logo novo para Curitiba e lá começou e abandonou alguns cursos universitários: Medicina, Advocacia e Odontologia. Nenhum o saciava. Rubens, ingênuo, queria o Céu na Terra e, se possível, já. Movido por um desejo do “nunca visto”, impulsionado então pelos seus ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, logo se ligou na guerrilha nos idos dos 60. Com seu apurado senso de orientação, adquirido na prática de menino destemido de seringal, ganhou a missão de levar armas para Che Guevara na Bolívia.

Contaram-me Mestre Florêncio e Conselheira Sueli que chegaram a ver e ler uma carta de Ernesto a Rubens, agradecendo-lhe. Com a morte de Che, Rubens já um tanto desiludido voltou a Porto Velho e, no Café Santos, ponto central da 7 de setembro, principal rua da cidade ribeirinha de então, travou debate com Raimundo Braga, o nosso Mestre Braga, defendendo a impossibilidade da existência de Deus. Materialista convicto, socialista praticante, nada o convenceria da existência de um Ser Superior, no meio de tanta maldade humana.

Eis então que “Braga” o desafia a beber um chá com ele e seu Mestre. Rubens, que não corria nem de onça, nem de breu denso de cortar com terçado, aceitou. E foi aí então que a história do Mestre Rubens teve princípio. De ateu ao cristianismo, da revolta armada à Convicção do Mestre, de Marx a Mestre Gabriel.

Conheci-o em 1974, ano em que cheguei ao Vegetal. De passagem por Brasília nos encontramos: ele, eu e Yuugi (hoje Mestre Yuugi Makiuchi, Núcleo Luz do Oriente, Brasília-DF), na chácara dos pais deste. Pense num Vegetal bom!!!!. Nele me vi e me assustei comigo. Rubens sem saber me apresentou a mim. Dali amigos para sempre ficamos e nos encontramos algumas vezes aqui e lá.

Rubens me consolou de algumas das minhas dores, repartindo seus sofrimentos e me ensinando a rir de mim. Me embalou como só um irmão mais velho sabe fazer, até que me chamou para ir morar junto dos nossos primeiros irmãos. Bendito dia em que me convencestes a seguir para a terra dos caiaris, querido Bina. Jamais esquecerei tua querida família me recebendo e me dando casa, comida, rede pra dormir e muito, muito afeto. Não tenho como te pagar “doutor mateiro”. Fiquei devendo. Mas sei que um dia o nosso Deus nos colocará de volta no mesmo trecho de espaço/tempo.

Até lá!

Do mano Edison Saraiva Neves

*Edison Saraiva Neves é integrante do Conselho da Representação Geral (CRG) do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal.

Texto publicado anteriormente em 22 de outubro de 2019.

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